A violência contra trabalhadores da saúde é consequência do projeto político do GDF
- 13 de ago.
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Por Nayara Jéssica, diretora Administrativa SindEnf-DF
Mais uma vez fomos surpreendidos com a notícia de que uma enfermeira, no exercício do seu ofício, foi agredida fisicamente por uma paciente. Esse tipo de notícia, que é cada vez mais frequente, não pode ser normalizado.
A agressão sofrida por uma enfermeira dentro de um hospital público do Distrito Federal, além de não ser um episódio isolado, é mais um retrato de uma rede de saúde submetida, há anos, à precarização, à sobrecarga e à incapacidade de responder adequadamente às necessidades da população.
Nenhuma frustração justifica violência contra trabalhadores da saúde. A responsabilização de quem pratica violência precisa ser firme. Mas responsabilizar o agressor não encerra a discussão.
Existe uma violência anterior, silenciosa e institucional, que também precisa ser enfrentada: a violência que o trabalhador sofre ao sustentar uma rede de saúde cada vez mais fragilizada e, ao mesmo tempo, colocá-los diante de uma população que chega aos serviços de saúde sem encontrar a resposta que precisa. A violência que a população sofre, ao perigrinar pela unidades em busca de atendimento, e se deparar com déficit de pessoal, e a incapacidade do sistema de absorver sua demanda.
A violência direcionada ao profissional de saúde, em especial a enfermagem – que na maioria das situações é o principal ponto de comunicação entre o serviço e o paciente, não se trata apenas de uma questão de segurança, mas resulta de um grave problema de gestão pública, que não trata a saúde do Distrito Federal como prioridade.
O DF vive uma crise assistencial que não surgiu de repente. Ela é resultado de decisões políticas que, ao longo dos anos, enfraquecem a capacidade do Estado de oferecer uma assistência pública de qualidade.
O desmonte do serviço acontece de forma ordenada, em consequência às escolhas dos gestores em não nomear concursados, mantendo incompletos os quadros de pessoal, em não tratar o adoecimentos dos trabalhadores com a devida atenção, e em tercerizar serviços essenciais, causando desarticulação da rede assistencial.
O resultado é previsível: longas filas de espera, sobrecarga e exaustão dos profissionais, e conflito entre servidores e população. E, nesse cenário de caos institucionalizado, o trabalhador é transformado em anteparo de uma crise que não produziu.
Em fevereiro de 2025, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios descreveu problemas estruturais na saúde pública do DF, citando, entre outros fatores, subfinanciamento, superlotação, déficit de profissionais, gestão ineficiente, ingerência política e infraestrutura precária. Segundo o MPDFT, a combinação dessas deficiências produzia um cenário caótico para a população.
Em março de 2026, o órgão voltou a cobrar providências da Secretaria de Saúde diante do déficit de profissionais, recomendando a nomeação de enfermeiros e técnicos aprovados em concurso e a realização de novo certame para médicos de família, justamente para reduzir a sobrecarga da rede.
Em julho, o MPDFT foi ainda mais contundente: apontou déficit de 4.166 profissionais em 17 especialidades e recomendou a realização de concurso público, destacando que a demora na recomposição do quadro prejudica a prestação dos serviços de saúde à população.
Não estamos, portanto, diante de uma percepção isolada de quem trabalha na saúde: Há um problema estrutural reconhecido e documentado.
E, ao mesmo tempo em que a rede é mantida com déficit de trabalhadores, a violência contra os profissionais cresce. Pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal mostrou que 61,7% das profissionais de enfermagem entrevistadas já haviam sofrido agressão verbal e 15% haviam sofrido violência física.
É impossível olhar para esses fenômenos separadamente.
À medida que o Estado perde capacidade de resposta, cresce a frustração de quem depende do serviço público. Quando a demanda aumenta sem que a rede tenha condições de acompanhá-la, a sobrecarga recai sobre os trabalhadores. E, em um ambiente marcado pela espera, pela exaustão e pela sensação de impotência em ambos os lados, o conflito se torna cada vez mais provável.
É necessário, portanto, compreender que a violência é um dos efeitos de uma rede que vem sendo levada ao limite, e consequência das escolhas políticas do governo Ibaneis/Celina para a saúde pública. Por isso, a solução para esse problema não pode se limitar ao reforço da segurança patrimonial das unidades. Câmeras, vigilantes e protocolos de segurança podem ser necessários, mas são insuficientes para enfrentar a raiz do problema.
A verdadeira política de segurança para os trabalhadores da saúde perpassa pela estruturação das equipes, mais nomeações, valorização profissional, e condições dignas de trabalho. Um SUS que funcione adequadamente é a solução para reduzir a frustração do usuário do serviço.
Mudar essa realidade exige mais do que proteger o trabalhador depois que a violência acontece. Exige reconstruir a rede antes que ela chegue ao limite, devolver ao trabalhador condições para executar suas funções, e ao cidadão o direito de ser cuidado com dignidade.
Portanto, para mudar a realidade que a população enfrenta hoje, o DF precisa de um governo que tenha compromisso político com a reconstrução da saúde pública, com os trabalhadores do SUS, e com os usuários do sistema de saúde.




